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acimadetudoviver

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Também é preciso falar disto...

02.11.20, acimadetudoviver

Já aqui disse que devido ao meu trabalho, lido com as emoções menos boas das pessoas, sou agente funerária e maior parte das vezes deparo-me com a rejeição das pessoas em relação à morte dos seus entes queridos, porque é um assunto do qual não se fala, do qual se esconde e não permitimos sequer que as crianças assistam a um funeral porque achamos nós, vai traumatizá-las.

Pela parte que me toca já vivi a perda na primeira pessoa e apesar do meu trabalho não foi mais fácil, não estava preparada e tive que viver o luto à minha maneira, em alguns dias é mais fácil de lidar do que outros, no que diz respeito a deixar o meu filho ir a funerais disse-lhe para ele decidir como se sentia mais confortável e a decisão dele foi continuar a vida dele e fazer o estava habitualmente programado, neste caso foi ir à escola.

Isto para dizer que o facto de ter a profissão que tenho, há coisas que fazem parte dos rituais fúnebres, neste caso refiro-me à religião católica porque é a que lido mais de perto, mas nos quais eu não me reveijo e já tive ocasião de falar com familiares próximos inclusivé o meu filho e explicar o que eu pretendo para mim. Uma vez que sou eu que decido o que fazer da minha vida é justo que no fim dela eu tenha uma palavra a dizer, assim nada como tomar todas as decisões quando ainda se tem capacidade para o fazer.

Sempre falei sobre todos os assuntos com o meu filho, independentemente da idade dele, e esta situação não foi excepção, assim como a atitude dele foi muito tranquila e achou que fazia todo o sentido. Apesar de ter sido educada na religião católica e de a minha família ser praticante, sobretudo a minha família paterna, eu não faço questão de ter qualquer religião, aliás maior parte das vezes intitulo-me como ateia, e nesse sentido o meu desejo final passa por doar o meu corpo à ciência porque é o que eu considero que está certo, porque para que exista um estudo aprofundado de algumas doenças é necessário haver material de estudo e nada melhor que o corpo humano.

Assim o primeiro passo está dado, já contactei a faculdade de medicina de Lisboa e já expressei a minha vontade, já preenchi o formulário e as próximas etapas serão o reconhecimento da assinatura presente no formulário e o respectivo envio para o departamento da faculdade que trata deste assunto. Depois é ficar descansada que o meu último desejo vai ser cumprido, claro que há na minha família quem tenha ficado chocado, sobretudo a minha mãe que como ela costuma dizer : "lá estás tu com as tuas ideias", a minha irmã também não ficou confortável com o assunto, também acha que é um perfeito disparate, mas é uma questão de hábito daqui por uns tempos já toda a gente interiorizou e já ninguém pensa nisso.

Lá está a minha irmã acha que quanto mais tarde se falar nestas "coisas" como ela diz, ou não se falar de todo, melhor quando chegar a altura logo se vê, eu não sou assim, mais uma caracteristíca herdada do meu pai, gosto de pensar em tudo e se possivel planear tudo porque como qualquer ser vivo também o ser humano nasce, vive e morre por isso é importante que todas as etapas sejam definidas pois fazem parte do todo.